Meus irmãos mais novos caminhavam a nossa frente, com a avidez de menino que corre livre pelos campos; com a tranquilidade daqueles cuja única preocupação era qual seria a próxima brincadeira, ou a pedrinha que arranca do chão para atirar no riacho, a fruta madura no pé pedindo pra menino subir; coisas de menino pequeno, sem preocupação. Eu e minha irmã, eu com oito e ela com quase sete, caminhávamos junto da mãe um pouco mais atrás.
Era um dia muito importante, um desafio e tanto. Eu sentia uma mistura de alegria, ansiedade, medo. Medo do mundo que começava a despontar no longe. Na casinha branca, próxima do riacho de tantas pescarias. O cheiro de bastão –plantinha da beira do riacho de flor branca e cheirosa. A escolinha de um cômodo só, onde a mãe também estudara. Nunca havia estado lá. O que sabia era o que a mãe contava: a cartilha, as lições, os castigos. Será que a professora é brava? Professora brava é bom, ensina direito, não deixa menino fazê corpo mole. A mãe ia decidida, aquela expressão que bem sei, cuidando de tudo. O pai na lida da roça. Era o primeiro dia de aula. Que frio no estômago. O que vou dizer se a professora perguntar alguma coisa?
Chegamos. Outras crianças, algumas já conhecidas, outras que eu nunca havia visto. A professora: cabelos curtos, pele branquinha, sorriso bom. Eu e minha irmã nos sentamos. Carteira e cadeira de pés de ferro. Chão de tijolo, igual ao da minha casa. Os alunos em silêncio. A mãe conversou alguma coisa com a professora e foi embora. O medo apertou. Que frio no estômago. Que dor de barriga. Dona Cidinha se aproximou e disse que faríamos uma brincadeira. Distribuiu uns cartõzinhos com letras. Conhecia algumas letras. Minha mãe me ensinara. Até já sabia escrever o nome do meu avô na areia do quintal. Mas quando a professora entregou aquelas letrinhas, fiquei apavorada e disse por mim e por minha irmã. Professora, nós não sabe lê.
Não me lembro o que aconteceu depois, só sei que foi agradável, fizemos umas brincadeiras com aquelas letrinhas, Dona Cidinha mostrou alguns livros. Deixou até levar para casa, mas tinha que devolver depois. E os cadernos então... Que coisa mais linda e gostosa de escrever com lápis apontadinho! Bem melhor que graveto na areia. E tinha cheirinho de coisa nova. Cheirinho da professora. E teve merenda, brincadeira no recreio, lição pra fazer em casa.
Quando a mãe veio buscar, já não tinha mais aquele frio na barriga, se bem que ele voltou várias outras vezes, quando tinha uma lição nova, uma chamada oral, teatrinho, jogral, gincana na semana da criança, até para receber o presente de final de ano (Dona Cidinha, além de fazer festas, dava presente pra todos nós), uma boneca linda – a Júlia – guardo até hoje...rsrsrs. Mas, ao final daquele primeiro dia, só a sensação de conquista, só o cheiro agradável da flor de bastão.
Os outros anos de estudo na escolinha da Água Branca foram cheios de desafios, crescimento, alegrias, algumas decepções. Na segunda série a professora, não me lembro o nome dela, teve que nos deixar por problemas de saúde, não sei muito bem o que era, ela disse que era coisa de mulher velha que não havia se casado. Até hoje não entendi. Quando ela se foi, veio uma professora que não dava aula, só nos levava para brincar no riacho, mandava copiar umas coisas da cartilha. Eu achava um horror. A maior parte do tempo cuidava ela dos próprios filhos pequenos que levava para lá por não ter com quem deixar. Mas havia muita coisa agradável: pão com ovo na merenda, queimada, pega-pega, bandeirinha no recreio, e os amigos. Como as casas eram bem distantes uma das outras, só nos encontrávamos na escola.
No ano seguinte veio a Dona Araci, a fazendeira. Muito brava, enérgica. Acho que gostava muito de matemática, enchia o quadro com problemas difíceis. Lembro-me também que ela falava que todos os animais são úteis, até mesmo os ratos e as baratas que existem para dar trabalho às mulheres. Falava também que devemos limpar bem a casa, arrastar todos os móveis, limpar todos os cantos por causa de um inseto que causa uma doença muito grave – o barbeiro.
Mais um ano se passou e fui para a quarta série, mas havia um problema: parece que naquele ano não havia o número de aluno o suficiente para montar uma quarta série. Então passei o ano assistindo aulas e fazendo novamente as atividades da terceira série, com a mesma professora, a que gostava de matemática. Somente no ano seguinte é que fiz a quarta série.
A professora da quarta era Dona Marlene, ficou lá por quatro anos. Dessa época, não me lembro o que estudamos, o que aprendi, nem se Dona Marlene era boa professora ou não. Parece meus olhos já olhavam além das quatro paredes daquela salinha multisseriada. Lembro-me que minha mãe gostava muito dela. Ela sempre doava roupas, brinquedos para a minha família. Sempre perguntava se minha mãe precisava de algo. Um dia, eu já não estudava mais lá na escolinha - depois da quarta série não tinha mais como estudar. Tudo muito longe. Mas como eu dizia, um dia a Dona Marlene me mandou um embrulho de papel, acompanhado de um bilhete que dizia mais ou menos assim: Oi, Matilde! Como está essa menina linda? Se você fatiar e colocar no sol vai dar umas torradinhas deliciosas. Um abraço, Marlene. Era um pacote de pães dormidos. Por muito tempo eu guardei aquele bilhete. Era uma letra linda. Letra de professora.
E foi essa professora, que alguns anos mais tarde, convenceu a minha mãe de que eu precisava voltar a estudar. Eu estava com quinze anos e, para poder voltar a estudar, me mudei para a cidade. Fui morar e trabalhar como empregada doméstica na casa da Dona Clair - uma professora e diretora de escola que me ensinou muito mais do que aquilo que se aprende nos livros. Novamente aquele mesmo frio no estômago. Igual ao do primeiro dia de aula. Igual não, maior, afinal as responsabilidades agora eram bem maiores. Minha mãe foi me levar. Fomos de carona com o caminhão que transportava os latões de leite – esse era o nosso único meio de transporte naquela época. Vi nos olhos dela como foi difícil me deixar lá, sozinha em um mundo desconhecido. Quando li o Ateneu pela primeira vez, aquela cena do pai despedindo-se do filho à porta do colégio “Vais encontrar o mundo, meu filho” me levou de volta àquela despedida no portão. Minha mãe indo embora. Eu ali com aquele nó na garganta. Novamente a velha mistura de alegria, ansiedade, medo. Medo do mundo que começava a despontar no longe.
E chegaram as aulas. Tudo muito grande, embora fosse uma escola pequena. Apenas o Ensino Fundamental, apenas quatro salas de aula. Período noturno. Aí vieram os amigos que ficaram, outros que se foram. Tantas informações, quanta descoberta. O mundo era bem maior do que eu imaginava. Os professores: o de Ciências, baixinho e muito doido; o de Matemática, cabelos de prata, entendia de números e de poesia; a de Português, séria, muito competente, exigente, além de elegante; o de História, sabia como ninguém nos levar para várias épocas e lugares; a de Geografia, linda, jovem e muito doida.
Fim do Ensino Fundamental, hora de nova decisão. Já há algum tempo tinha o desejo de cursar o Magistério. Aliás, esse desejo nasceu lá nos anos iniciais. Quando falei daquela escolinha, lá na fazenda, esqueci de mencionar um problema que me deixava indignada. Muitas vezes, nós ficávamos esperando a professora e ela não aprecia, principalmente quando chovia muito e nenhum carro conseguia chegar lá. Um dia, depois de ficar um tempão esperando a professora e voltar para casa decepcionada porque ela não viera, eu disse: Quando crescer vou ser professora e ninguém vai ficar sem escola. Essa promessa sempre me acompanhou, acho que ainda me acompanha. Bom, o fato é que ao término do Ensino Fundamental eu queria cursar o Magistério. Havia duas opções: um curso noturno em uma cidade vizinha ou o CEFAM[1] (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério), um projeto novo, parecia muito interessante: imagina, poder estudar o dia todo e ainda receber um salário! No entanto, havia um problema – precisava parar de trabalhar e se não trabalhasse, onde iria morar? Então, me inscrevi para o Magistério naquela cidade vizinha.
Não consegui vaga. O jeito foi ir para o Ensino Médio, regular. Agora em outro colégio. Um prédio enorme, lindo, cheio de histórias para contar. Lá conheci grandes professores, mas a que mais me marcou foi uma professora de Português – Eliana Maciel, com ela descobri que eu sabia e gostava de escrever. Nas aulas de redação, ela nos levava para uma sala ambiente. Lá deitávamos no chão, ela colocava música, conduzia nossa imaginação. Lembro-me de uma atividade de criação de personagem. A sala escura, a música agradável e a voz da professora: Imagine que você é uma outra pessoa. É homem ou mulher? Onde vive? Como é sua vida? Que dificuldades enfrenta? ... E ao final disse: Quando você estiver pronto, comecem a escrever. Não se preocupe com a letra, com os erros de português, depois você corrige, passa a limpo. Se não conseguir aqui, faz em casa. Eu achei isso o máximo. Nunca conseguia fazer uma redação direito. Era um título no quadro e uma corrida contra o relógio para entregar a tarefa antes de o sinal tocar. Ali mesmo no chão, comecei a escrever, quase com a mesma volúpia que estou escrevendo agora. Eu descrevi uma mulher, sofrida. Uma nordestina, bóia-fria. Não me lembro qual foi a minha nota, para mim foi dez.
No final do ano, novamente um impasse. A escola onde seu estava estudando, era a mesma onde funcionava o curso do CEFAM. Algumas amigas estavam fazendo o curso e diziam que era maravilhoso. Mas, como fazer? Preciso de um lugar para morar. Novamente aquele friozinho no estômago. Decidi. Fiz inscrição para o processo seletivo: prova escrita, redação, entrevista. Passei. Pedi demissão. Uma amiga, a Iolanda, conseguiu um lugarzinho para eu morar. Um quartinho na casa de um tio dela.
Começou o ano de letivo. Logo de cara tudo muito diferente. Semana do Bicho, Gincana. E os professores novos, diferentes, outras ideias. Helena, de História (muiiiiiiiiiiito exigente, o terror para muitos); Marilena, Português, doce, meiga, convencia qualquer um a se encantar por Literatura; Otávio, de Filosofia e História da Educação (político, marxista, engajado); Robson, de Português também (alto, bonitão, capoeirista e muiiiiiito exigente – tirar um B de redação com ele era o máximo); Marcinha, de Inglês (um amor de pessoa – hoje é minha colega de trabalho); Sávio, de Matemática (nos ensinou a ensinar matemática); outra de Português, a Eliana Maciel, (aquela das aulas de redação, dispensa mais comentários. Hoje é supervisora de ensino, escritora e blogueira http://elianapmaciel.blogspot.com/. E nossos caminhos continuam prazerosamente se cruzando); e tantos outros mestres...Alane, Adilson, Luís Fernando, Maria Lúcia, Mileide, Maria Aparecida, Vitor, Laura. Desculpem-me se esqueci de alguém.
Sim, o CEFAM foi um divisor de águas. Tantas leituras: Guimarães, Garcia Marques, Veríssimo, Pessoa, Drummond, Chauí, Rubem Alves, Marx. Tantas atividades: debate, painel integrado, peça de teatro infantil apresentado para as crianças das escolas municipais, livro de poemas, trabalho voluntário reforço/alfabetização, feira de ciência e cultura. Aprendi muito. Aprendi que o mundo é muito, muito maior ainda. Que as verdades são relativas. Que tudo é possível. Que há amizades que ficam para sempre. Que as diferenças são virtudes e não defeitos. Que trabalho em equipe é difícil, mas é essencial. Que professores deixam marcas para sempre, para o bem ou para o mal.
[1] CEFAM - Os Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério foram criados pelo Decreto Governamental nº 28.089 de 13 de Janeiro de 1988, no âmbito da Rede Estadual de Ensino. Com o objetivo de “recuperar a especificidade dos cursos de formação para o magistério e colaborar para suprir as deficiências do atendimento às séries iniciais da escolaridade na rede estadual de ensino; oportunizar aos alunos, trabalhadores e demais concluintes do 1º grau da rede pública um curso de formação de professores de boa qualidade, em período integral; oferecer programas de aperfeiçoamento aos docentes que atuam, na rede pública estadual, de pré-escola à 4ª série do 1º grau e nos cursos de 2º grau com Habilitação Específica de Magistério; coordenar a nível regional estudos e ações sobre a habilitação do magistério e atender a política de ação e diretrizes da Secretaria da Educação".