Escrevi este texto a partir da seguinte proposta: redigir uma história que tivesse como personagens a Locução Adjetiva, o Superlativo, a Poesia Lírica e I Juca Pirama, elaborada pelo professor Robson (CEFAM - Guaratinguetá)
Um caso de dramática
A Senhora Locução Adjetiva, esse era seu nome, uma viúva cheia de manias, muito autoritária e extremamente ambiciosa – dizem as más línguas que o marido morrera vitimado pelo temperamento da mulher deixando a fortuna acumulada ao longo da vida - residia em uma das mais belas mansões da corte. Dois imensos portões dourados guardavam a entrada do jardim: uma festa de cores e fragrâncias, além dos adornos frutos da mais bela arte. Os ambientes internos denunciavam o refinado gosto da Senhora pelo luxo e riqueza. Tudo impecavelmente decorado com as peças mais finas daquela e de outras épocas. De todos os ambientes o mais radiante era o salão, palco das mais requintadas festas que ela oferecia à sociedade carioca do século XIX.Essas festas tornaram-se cada vez mais frequente desde que a Senhora decidiu que estava na hora de casar a filha, a Poesia Lírica, jovem belíssima, de coração imensamente romântico e sonhador como revelavam seus olhos celestiais. A mãe, preocupada com romantismo, a ingenuidade da filha dedicava agora grande de seus dias na busca de um bom marido para a menina.
Em uma dessas festas, Poesia foi apresentada a um moço muito distinto, segundo a mãe, o Senhor Superlativo. Um homem um tanto quanto...digamos...excêntrico ou se preferirem, esquisitíssimo. Parece que nascera impecavelmente vestido e penteado, seus gestos eram minuciosamente calculados, fazia uso de um vocabulário apuradíssimo, finíssimo, falava vários idiomas, entendia de artes, literatura clássica, leis, boas maneiras. A Senhora, em pouco tempo simpatizou-se muito com o moço, principalmente devido aos seus dotes financeiros e fazia de tudo para que a filha correspondesse aos galanteios do moço. No entanto, Poesia Lírica desenvolvera verdadeira aversão àquele homem.
Apesar de estar sujeita às vontades da mãe Poesia Lírica prezava muito sua liberdade e sonhava com alguém que pudesse ser o dono de seu coraçãozinho. Um de seus passatempos prediletos era passear num largo próximo à sua casa. Passava as tardes ali, divagando. Foi em um desses passeios vespertinos que ela conheceu aquele que mudaria o curso de sua história. O jovem guerreiro I Juca Pirama, da tribo tupi-guarani. Ele havia deixado seu povo vindo morar na cidade em companhia de um senhor que vivera em sua tribo e há pouco retornara ao Rio de Janeiro.
O olhar que Poesia Lírica e I Juca Pirama trocaram pela primeira vez revelou o nascimento de um forte e puro sentimento. A moça tinha a certeza de que encontrara o amor que tantas vezes vira em sonho.
Quando a mãe soube dos encontros proibiu a filha de sair de casa e decidiu estreitar os laços entre Poesia Lírica e o Senhor Superlativo e apressar os preparativos para o casamento. A moça fica inconsolável, já não consegue viver sem seu amor, além disso, não suporta a presença do noivo que a mãe lhe arranjara.
Após algumas semanas de aflição, I Juca Pirama e Poesia Lírica conseguem se corresponder com a ajuda de um homem que vivia perambulando por ali e a quem todos chamavam de louco. Ela entregava as cartas à moça enquanto ela passeava no jardim, um dos poucos momentos de liberdade que logo foi lhe tirado – a mãe estava desconfiada, passou a vigiar a filha o tempo todo, assim como exigiu que o Senhor Superlativo marcasse logo a data do casamento, “Só assim essa menina cria juízo”.
A moça já não sabia mais o que fazer, acreditava que tudo estava perdido. Até que um dia, na véspera do casamento, uma criada da casa entra no quarto com uma carta que o louco trouxera. Na carta I Juca propunha que fugissem para sua tribo, onde certamente seriam aceitos e viveriam em paz. Fugiram nessa mesma noite.
O Senhor Superlativo, desgostoso da vida, partiu para a Europa. A Senhora Locução, ainda amargou por longos anos.
Guaratinguetá, 1992
A rua de minha lembrança
Pequenina, estreita, ora plana, ora esburacada, a rua da Água Branca vai desde o alto do Morro Azul até a avenida dos Soares. Porém o trecho que me é singular, porque ali está a velha casinha de barro, vai do antigo celeiro ao velho casarão azul.Aí, já não passam os velhos carros de boi. A fumaça dos carros barulhentos deixa, no verde que ainda resiste, uma névoa acinzentada. As velhas casas de pau-a-pique deram lugar a construções
frias, geométricas e monumentais. E a velha casinha ainda resiste. Parece que até posso ver a fumaça saindo pela chaminé do velho fogão a lenha.
Lorena, 1995.
O casarão
Ela era amável, amiga, hospitaleira. Um dia e por vários dias amanheceu amarga, distante, infeliz. Ninguém compreendeu a mudança, até que naquele tarde de inverno o mistério foi desvendado.Durante o dia todo as janelas do casarão permaneceram fechadas. Os mais atentos estranharam um pouco,mas não deram importância ao fato e seguiram no curso de seus afazeres. Por volta das 15h, um parente da senhora bateu à sua porta e como ninguém atendesse, decidiu entrar. Entrou na sala, chamou e só encontrou o silêncio. Silêncio quebrado pelo miado do gato preto saido de um canto como se quisesse dizer algo. Subiu as escadas e já do corredor pôde ver o corpo alí ao lado da escrivaninha. Sobre a cama um papel amarelado mostrava a caligrafia trêmula do desespero.
Aquela carta, que foi lida por muitos, mostrava a profunda tristeza de uma pessoa cuja história era o próprio casarão. Ali viviam suas realizações e angústias, suas alegrias e seus medos. "Não posso mais. Eles não entendem, não podem entender. Não percebem que minha vida está aqui! Agora querem derrubá-la" Ela preferiu fechar de vez os olhos a ver tamanha crueldade.
Lorena, 1995.
Parafraseando Drummond
Cinco meninas e quatro meninas
sendo dois ainda de colo.
Os cômodos apertados, a cama velha,
os passarinhos, os gatos, os cachorros,
as galinhas magras no quintal
e a mãe que trata de tudo.
O balanço, o carrinho de madeira, a velha mangueira,
o leite fresco, a escola, as brincadeiras,
a fruta colhida na hora,
o sorriso depois da festa,
o velho rádio tocando músicas sertanejas
e a mãe que trata de tudo.
O fazendeiro, o tratorista, o leiteiro,
o médico de vez em quando,
a loteria esportiva todas as semanas,
Nunca treze! Mas a esperança permanente.
A mãe que cuida de tudo
e a felicidade que não tem preço.
Lorena, 1995.
Novo velho mundo
Moro na cidade de São Paulo. A vida por aqui é muito tranquila. Nos finais de semana, costumamos, eu e meus amigos, passear pelas ruas da cidade, gostamos de fazer piqueniques às margens do velho Tietê.Outro dia, era sábado, o dia estava lindo! Eu e toda a turma: a Débora, o Juninho, a Tatiana, o Osvaldo, o Marcelo, a Carolina, resolvemos sair bem cedinho para uma pescaria. E lá fomos nós levando todos os apetrechos necessários. Levamos também uma cesta de guloseimas – seria um piquenique-pescaria.
Chegamos por volta das 8 horas. Montamos as redes, os caniços. Estávamos com o pressentimento de que o dia estava pra peixe. Porém o tempo foi passando e nada de peixe, nenhuma fisgadinha. De repente ouvimos um som muito estranho, um som...irritante, vindo do fundo do rio. Sem saber porque nós todos nos sentimos muito atraídos por aquele som e fomos entrando nas águas límpidas do Tietê. Lentamente toda aquela paz da superfície foi ficando para trás.
- De repente tudo está ficando cinza.
- Que cheiro desagradável!
- Estou sentindo um peso sobre mim.
Então o ruído se intensificou e começamos a cair numa velocidade tremenda. Chegamos a um lugar muito estranho. Havia uma multidão apressada nas ruas. Veículos barulhentos cuspindo fumaça se enfileiravam nas avenidas. Nós nos olhávamos assustados nos perguntando que lugar seria aquele.
Foi então que passou um rapaz, menos apressado que os outros, e a Débora perguntou:
- Que lugar é esse?
- É a cidade de São Paulo, respondeu o moço.
- São Paulo!!!??? Mas como!!??
- Mas que São Paulo é essa? Será que voltamos ao passado?
- Moço, em que ano nós estamos? – perguntei.
- Em 1992, oras.
O Espanto foi geral. Tínhamos voltado 2060 anos no tempo. Bem ali na nossa frente estava o nosso velho rio, sim o rio das pescarias e mergulhos, porém em estado deplorável, uma podridão só, exalando um cheiro insuportável. Estamos no final do século XX. Todas aquelas coisas horríveis que tínhamos visto nos livros de história estavam bem ali na nossa frente.
Aprendemos nos livros que o mundo nos séculos XX e XXI estava em total decadência, antes da grande Revolução de 2023, mas não imaginávamos que tinha sido assim tão terrível. As pessoas que ali viviam, que andavam pelas ruas, pareciam que não tinham rosto, esbarravam-se e não se viam, corriam de um lado para o outro e não iam a lugar nenhum. O verde não existia, só cinza sufocante exalado pelas chaminés e escapamentos do progresso.
Tudo aquilo foi nos causando muito mal. Um mal estar terrível, já não conseguíamos respirar. Começamos a morrer aos poucos sufocados mais pelo pânico que pela fumaça. Hoje, aqui do alto, somos encarregados de olhar pela humanidade e interferir quando necessário para que a História dos séculos XX e XXI jamais se repita.
Guaratinguetá, 1992.