sábado, 31 de julho de 2010

Chá de sumiço

O clima de agitação política atingira o auge. As discussões fervilhavam nas ruas, nos bairros, nas esquinas. Depois de uma longa hibernação, as pessoas voltavam a discutir, a "criticar" os problemas nacionais. Os meios de comunicação cumpriam sua nobre função; acender a discussão aqui, amenizar ali.
Mas o que realmente comoveu os expectadores atentos foi a grande passeata de jovens estudantes que parou a avenida mais movimentada do país. Aquele bando de jovens, movidos por uma "força estranha" foram às ruas para protestar contra o lodaçal que viera à tona, inundando o meio político. Ostentavam seus ideais através de faixas, gritos discursos e cores estampadas no rosto.
Os veteranos mais eufóricos não continham a emoção. Tudo o que sempre sonharam, aquele grito preso na garganta. Estava acontecendo naquele momento. A vista de todos: na TV, nas revistas, nos jornais. O "bicho-de-sete-cabeças" fora morto e a consciência ressuscitara. Estava nascendo uma juventude politizada - como nos velhos tempos - que discute os problemas, aponta soluções, muda o rumo da história.
No entanto, um estranho fenômeno acometeu esses jovens. Sim, porque, pelo que tudo indica, desapareceram do mapa. O bicho terrível está fazendo barbaridades por aí e nem sinal de protesto, de discussão, de ação consciente. Será que a febre foi tão forte alta que eliminou os iminentes cidadãos? Ou será que foram raptados por seres alienígenas? Não sei, o fato é que aqui não estão.

Matilde Espindola

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Anjo

A mãe colocou o menino mais novo no caixote de madeira, à beira do poço, enquanto o outro corria ao redor pisando as cascas secas de eucalipto; no pé de caqui, os sanhaços cantavam saboreando a doçura da fruta. Ela jogou no poço a velha lata presa a uma corda que deslizava pela carretilha, apoiou-se na borda de tijolos, o peso da barriga tirava-lhe o equilíbrio, quase oito meses, o sétimo rebento estava a caminho. Agora puxava a corda com força fazendo a lata subir dançando e derrubando a água barrenta. O poço estava quase seco, mas logo viria a chuva, ela sempre vinha.
Tirou mais algumas latas d’água do poço e lavou a roupa. O pequeno chorava, era fome e logo todos chegariam para o almoço. Pela chaminé, a fumaça anunciava que o feijão devia estar quase cozido. A mãe secou as mãos na velha blusa desbotada, pegou os meninos e entrou. As meninas, já grandinhas: sete, oito e nove anos, limpavam a casa, varrendo o chão de tijolos e tirando o pó dos velhos móveis.
A mãe, com sua habitual agilidade, preparou o almoço e botou os meninos para comer, enquanto o pai chegava carregando a enxada e um ramo de mastruz (bom pra dor nas costas - dizia). Ela olhou para o marido, o filho mais novo no colo “Esse minino num tá bem. Preciso levá pra cidade” Lavou o menino. Lavou-se também, vestiu a saia azul, a blusa estampada, chinelo nos pés e saiu para ver se arrumava carona. O pai ficou em casa com os outros meninos.
À tardinha, já quase escuro, chega a mãe com o filho no colo “O Osvardinho disse que é infecção de garganta, deu injeção e vai melhorá” Os meninos olhando para a mãe com admiração “Ela resolve tudo, não tem medo de nada” De fato sua força era impressionante: faltou comida em casa, caminhava quilômetros e pedia ajuda; se os meninos ficavam doentes, lá ia onde fosse preciso, da maneira que fosse possível; comprar roupa nova e chinelo de dedos pros meninos; levar ao posto de saúde para vacinação; e na Semana Santa ela é quem ia puxando a família para as celebrações em Aparecida, o que para ela tinha um sabor todo especial, um misto de dor e prazer das recordações da infância.
Às vezes queixava-se de algumas coisas - a vida fora dura com ela: sentia falta da mãe que mal conhecera, vivera poucas e boas com sua madrasta, arrependia-se de ter se casado aos vinte e um, “Queria ter aproveitado melhor a vida”, dizia. Mas, os seus filhos! Ah, cultivava por eles um amor tão grande que transcendia todas as misérias humanas.
Os anos passaram, já não vinham mais os filhos; parara no nono. Agora eram os netos que abençoavam seus dias com doces preocupações. E enquanto seus braços perdiam a força com que outrora puxava a lata para tirar água do poço e seus pés já não caminhavam tão ágeis naquelas estradas de pedras ladeadas de flores, sua força e sabedoria cresciam enchendo o mundo de encanto. Não era nem preciso falar, ela pressentia, adivinhava e suas breves e doces palavras tinham o mágico poder de mais uma vez ser o braço forte que freia e impulsiona, soluciona e acalenta.
E assim foi por muitos e muitos anos: os braços cada vez mais fracos, os pés cada vez mais lentos, e a voz cada vez mais suave, mas a força de sua alma e a luz que dela brotava cresciam tão rápida e intensamente que todos vinham de longe só para senti-la por um breve instante que fosse. E era tão intensa que pairava não somente sobre a pequena Vila, agora alcançava as cidades vizinhas, o Vale, o Continente, quiçá, o Planeta por completo.
Até que um dia atingiu a plenitude. E tendo cumprido a missão, o anjo voltou para o céu daquele pedacinho de chão.
Matilde Espindola