Pelo exercício do desapego |
De cara, confesso que já fui bem mais vaidoso, egoísta, algo assim. Mais apegado às coisas. Às minhas coisas, de humanos mortais. Mas ainda fico longe de ser um desapegado. Urge fazer este exercício. Lembro-me precisamente quando esta ideia se instalou. Minha irmã, como quem varre todas as letras da alma, comentava sobre o destino das coisas que guardo, amo e coleciono. E que enchem armários e estantes. O que será de nossas roupas, livros e demais objetos quando a gente já não pertencer a este mundinho de deuses? Nem tenho a desculpa de ter filhos para quem deixar os meus ricos pertences. Cá entre nós, tenho observado que até em famílias prósperas e bem educadas, nem sempre bens queridos, deixados por avós e pais a filhos herdeiros sobrevivem. Muitas vezes acabam virando nada. Ou lixo. Tudo muda e se recicla. Podemos até filosofar um pouco sobre o Tempo.Mas é preciso? Talvez acreditemos que a medida do que nos faz feliz e a dos bens materiais que temos seja a mesma. Usufruir a prosperidade, conforto e beleza é direito do ser. É um jeito de estarmos em sintonia com a abundância cósmica. Mas, não vamos confundir com posse. Fico pensando como seria ficar sem tantos livros, cds, perfumes, utensílios de vidro e louça, especiarias, quadros, coisas assim. Minha casa está abarrotada deles. Sempre tiro um ligeiro tempinho para lidar com eles. Como um jeito de instigar momentos prazerosos. Você deve ter também uma listinha de bens guardados carinhosos, não tem? Tenho uma amiga que é apaixonada por sapatos. Pelo simples prazer de tê-los. Completamente à disposição de um desejo inatingível. Ela tem uma sapatoteca. Pode? Compra e tira fotos deles e deixa estampado fora da caixa para saber qual deles é na hora de escolher. Outro dia li um texto de Fernando Pessoa no qual ele fala sobre o desapego. Ele fala de deixar ir embora. Soltar. Desprender. Encerrar ciclos.Penso eu que já vivemos bem sem alguma de nossas posses atuais. Disso ou daquilo. Portanto, nada é insubstituível. Mas, viver sem alguns materiais dos quais ficamos deliciosamente prisioneiros, ainda é difícil para mim. Tenho amigos que são exemplos concretos na arte necessária de viver o desapego cotidianamente. Um deles doou todos os seus livros a instituições. Assim ganham nova vida nas possibilidades de encontros. Cumprem a genuína função: promover múltiplas leituras, estar à mercê de leitores. Um bonito gesto mindliniano. E esse amigo não fica sem leituras, como um preso na masmorra, sem direito a nada. Sempre tem livros por perto, uma breve biblioteca disponível. Vai dando conta de ler, reler e passar adiante. Sempre que alguém o visita, ganha de saída um livro lidinho em folha. E o desapego renova a sua vida, atualiza as suas leituras, dá prazer a outras pessoas. Outra amiga, depois de viajar o mundo, criar família, perder pessoas mais que queridas e tantas outras coisas acabou se perguntando: “do que eu preciso para bem viver?”. Ela me disse que a resposta é aparentemente difícil e, ao mesmo tempo, essencialmente fácil e prática: não precisamos de muito para viver. Diz que a perguntinha marota tem alimentado a sua existência. De apartamento grande com lareira, jardim e cobertura, mora agora num “home oficce”, bacaninha e pequenino. “O suficiente para viver”, diz com sorriso mais nos olhos verdes do que na boca. O desapego mora com ela, aconchegadamente. Tem cinco pratos, síntese dos belos aparelhos de louça que tinha. E duas mudas de cama e de banho. E diz que está apenas no começo dessa nova vida, um tanto quanto desapegada de coisas materiais. Só busca o necessário para bem viver. Cá entre nós, sei que ela faz, com amor eterno, colares. Ela tem uma coleção deles. Lindos. Pendurados e de todas as cores e formatos. Acho que disso ela não conseguirá se desapegar, se é que isso também é coisa de desapego. Penso que é um mecanismo vital para ela. Diferente de pratos, toalhas e lençóis. Fiquei agorinha pensando naquelas pessoas que de um segundo para outro perdem tudo: filhos, casa, documentos, roupas, comidas... Acho doído demais. Mas, até onde sei, acabam se superando e, com algumas doses de solidariedade e esperança, recriam a vida num ciclo que renasce do nada e da perda total e absoluta. Que força é essa de eternidade que guardamos em nós, mesmo sabendo que o Tempo é o nosso presente maior e o nosso limite? Penso também que a escola é um lugar onde a gente pode exercitar alguns esboços de desapego. Ao avesso do consumismo exacerbado que impera a cada vez que olhamos para o mundo corroendo os nossos sonhos e desejos. Há atividades nas quais podemos investir no uso de materiais comuns e produções coletivas. Até que ponto o bem comum é energia vital da escola? Outro dia, ao abastecer o carro (esse outro bem que já está virando nosso segundo corpo), deparei-me com uma estante que ocupava um lugar de destaque incomum no posto de gasolina. Estava disponível, cheia de livros ao bel-prazer dos clientes. Isso é prática de desapego, não é? Vou parando por aqui na tentativa de iniciar meu autoconvencimento de que o desapego é necessário, pela nossa própria contingência de vida. Se tudo é transitório, o apego é o mesmo que querer segurar o vento, o ar ou a água entre os dedos. Estou tentando praticar uma dose boa de desapego. Confesso que nunca imaginei que fosse tão apegado em algumas coisas e que isso seria tão difícil. Olho para os meus armários e acho que eles estão abarrotados demais. Tenho que mexer neles. Praticar as primeiras lições de desapego e essência. Preciso fazer isso logo, logo. Não é preciso fazer isso em épocas natalinas, quando todo mundo fala disso e depois esquece, esperando o carnaval chegar. É uma questão de renovar e abrir ciclos da vida e do bem viver. Antonio Gil Neto Publicado em: 15/12/2010 Disponível em: http://escrevendo.cenpec.org.br/ecf//index.php?option=com_content&task=blogsection&id=13&Itemid=70 |
