sábado, 5 de fevereiro de 2011

O mundo despontava ao longe

Meus irmãos mais novos caminhavam a nossa frente, com a avidez de menino que corre livre pelos campos; com a tranquilidade daqueles cuja única preocupação era qual seria a próxima brincadeira, ou a pedrinha que arranca do chão para atirar no riacho, a fruta madura no pé pedindo pra menino subir; coisas de menino pequeno, sem preocupação. Eu e minha irmã, eu com oito e ela com quase sete, caminhávamos junto da mãe um pouco mais atrás.

Era um dia muito importante, um desafio e tanto. Eu sentia uma mistura de alegria, ansiedade, medo. Medo do mundo que começava a despontar no longe. Na casinha branca, próxima do riacho de tantas pescarias. O cheiro de bastão –plantinha da beira do riacho de flor branca e cheirosa. A escolinha de um cômodo só, onde a mãe também estudara. Nunca havia estado lá. O que sabia era o que a mãe contava: a cartilha, as lições, os castigos. Será que a professora é brava? Professora brava é bom, ensina direito, não deixa menino fazê corpo mole. A mãe ia decidida, aquela expressão que bem sei, cuidando de tudo. O pai na lida da roça. Era o primeiro dia de aula. Que frio no estômago. O que vou dizer se a professora perguntar alguma coisa?

Chegamos. Outras crianças, algumas já conhecidas, outras que eu nunca havia visto. A professora: cabelos curtos, pele branquinha, sorriso bom. Eu e minha irmã nos sentamos. Carteira e cadeira de pés de ferro. Chão de tijolo, igual ao da minha casa. Os alunos em silêncio. A mãe conversou alguma coisa com a professora e foi embora. O medo apertou. Que frio no estômago. Que dor de barriga. Dona Cidinha se aproximou e disse que faríamos uma brincadeira. Distribuiu uns cartõzinhos com letras. Conhecia algumas letras. Minha mãe me ensinara. Até já sabia escrever o nome do meu avô na areia do quintal. Mas quando a professora entregou aquelas letrinhas, fiquei apavorada e disse por mim e por minha irmã. Professora, nós não sabe lê.

Não me lembro o que aconteceu depois, só sei que foi agradável, fizemos umas brincadeiras com aquelas letrinhas, Dona Cidinha mostrou alguns livros. Deixou até levar para casa, mas tinha que devolver depois. E os cadernos então... Que coisa mais linda e gostosa de escrever com lápis apontadinho! Bem melhor que graveto na areia. E tinha cheirinho de coisa nova. Cheirinho da professora. E teve merenda, brincadeira no recreio, lição pra fazer em casa.

Quando a mãe veio buscar, já não tinha mais aquele frio na barriga, se bem que ele voltou várias outras vezes, quando tinha uma lição nova, uma chamada oral, teatrinho, jogral, gincana na semana da criança, até para receber o presente de final de ano (Dona Cidinha, além de fazer festas, dava presente pra todos nós), uma boneca linda – a Júlia – guardo até hoje...rsrsrs. Mas, ao final daquele primeiro dia, só a sensação de conquista, só o cheiro agradável da flor de bastão.

Os outros anos de estudo na escolinha da Água Branca foram cheios de desafios, crescimento, alegrias, algumas decepções. Na segunda série a professora, não me lembro o nome dela, teve que nos deixar por problemas de saúde, não sei muito bem o que era, ela disse que era coisa de mulher velha que não havia se casado. Até hoje não entendi. Quando ela se foi, veio uma professora que não dava aula, só nos levava para brincar no riacho, mandava copiar umas coisas da cartilha. Eu achava um horror. A maior parte do tempo cuidava ela dos próprios filhos pequenos que levava para lá por não ter com quem deixar. Mas havia muita coisa agradável: pão com ovo na merenda, queimada, pega-pega, bandeirinha no recreio, e os amigos. Como as casas eram bem distantes uma das outras, só nos encontrávamos na escola.

No ano seguinte veio a Dona Araci, a fazendeira. Muito brava, enérgica. Acho que gostava muito de matemática, enchia o quadro com problemas difíceis. Lembro-me também que ela falava que todos os animais são úteis, até mesmo os ratos e as baratas que existem para dar trabalho às mulheres. Falava também que devemos limpar bem a casa, arrastar todos os móveis, limpar todos os cantos por causa de um inseto que causa uma doença muito grave – o barbeiro.

Mais um ano se passou e fui para a quarta série, mas havia um problema: parece que naquele ano não havia o número de aluno o suficiente para montar uma quarta série. Então passei o ano assistindo aulas e fazendo novamente as atividades da terceira série, com a mesma professora, a que gostava de matemática. Somente no ano seguinte é que fiz a quarta série.

A professora da quarta era Dona Marlene, ficou lá por quatro anos. Dessa época, não me lembro o que estudamos, o que aprendi, nem se Dona Marlene era boa professora ou não. Parece meus olhos já olhavam além das quatro paredes daquela salinha multisseriada. Lembro-me que minha mãe gostava muito dela. Ela sempre doava roupas, brinquedos para a minha família. Sempre perguntava se minha mãe precisava de algo. Um dia, eu já não estudava mais lá na escolinha - depois da quarta série não tinha mais como estudar. Tudo muito longe. Mas como eu dizia, um dia a Dona Marlene me mandou um embrulho de papel, acompanhado de um bilhete que dizia mais ou menos assim: Oi, Matilde! Como está essa menina linda? Se você fatiar e colocar no sol vai dar umas torradinhas deliciosas. Um abraço, Marlene. Era um pacote de pães dormidos. Por muito tempo eu guardei aquele bilhete. Era uma letra linda. Letra de professora.

E foi essa professora, que alguns anos mais tarde, convenceu a minha mãe de que eu precisava voltar a estudar. Eu estava com quinze anos e, para poder voltar a estudar, me mudei para a cidade. Fui morar e trabalhar como empregada doméstica na casa da Dona Clair - uma professora e diretora de escola que me ensinou muito mais do que aquilo que se aprende nos livros. Novamente aquele mesmo frio no estômago. Igual ao do primeiro dia de aula. Igual não, maior, afinal as responsabilidades agora eram bem maiores. Minha mãe foi me levar. Fomos de carona com o caminhão que transportava os latões de leite – esse era o nosso único meio de transporte naquela época. Vi nos olhos dela como foi difícil me deixar lá, sozinha em um mundo desconhecido. Quando li o Ateneu pela primeira vez, aquela cena do pai despedindo-se do filho à porta do colégio “Vais encontrar o mundo, meu filho” me levou de volta àquela despedida no portão. Minha mãe indo embora. Eu ali com aquele nó na garganta. Novamente a velha mistura de alegria, ansiedade, medo. Medo do mundo que começava a despontar no longe.

E chegaram as aulas. Tudo muito grande, embora fosse uma escola pequena. Apenas o Ensino Fundamental, apenas quatro salas de aula. Período noturno. Aí vieram os amigos que ficaram, outros que se foram. Tantas informações, quanta descoberta. O mundo era bem maior do que eu imaginava. Os professores: o de Ciências, baixinho e muito doido; o de Matemática, cabelos de prata, entendia de números e de poesia; a de Português, séria, muito competente, exigente, além de elegante; o de História, sabia como ninguém nos levar para várias épocas e lugares; a de Geografia, linda, jovem e muito doida.

Fim do Ensino Fundamental, hora de nova decisão. Já há algum tempo tinha o desejo de cursar o Magistério. Aliás, esse desejo nasceu lá nos anos iniciais. Quando falei daquela escolinha, lá na fazenda, esqueci de mencionar um problema que me deixava indignada. Muitas vezes, nós ficávamos esperando a professora e ela não aprecia, principalmente quando chovia muito e nenhum carro conseguia chegar lá. Um dia, depois de ficar um tempão esperando a professora e voltar para casa decepcionada porque ela não viera, eu disse: Quando crescer vou ser professora e ninguém vai ficar sem escola. Essa promessa sempre me acompanhou, acho que ainda me acompanha. Bom, o fato é que ao término do Ensino Fundamental eu queria cursar o Magistério. Havia duas opções: um curso noturno em uma cidade vizinha ou o CEFAM[1] (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério), um projeto novo, parecia muito interessante: imagina, poder estudar o dia todo e ainda receber um salário! No entanto, havia um problema – precisava parar de trabalhar e se não trabalhasse, onde iria morar? Então, me inscrevi para o Magistério naquela cidade vizinha.

Não consegui vaga. O jeito foi ir para o Ensino Médio, regular. Agora em outro colégio. Um prédio enorme, lindo, cheio de histórias para contar. Lá conheci grandes professores, mas a que mais me marcou foi uma professora de Português – Eliana Maciel, com ela descobri que eu sabia e gostava de escrever. Nas aulas de redação, ela nos levava para uma sala ambiente. Lá deitávamos no chão, ela colocava música, conduzia nossa imaginação. Lembro-me de uma atividade de criação de personagem. A sala escura, a música agradável e a voz da professora: Imagine que você é uma outra pessoa. É homem ou mulher? Onde vive? Como é sua vida? Que dificuldades enfrenta? ... E ao final disse: Quando você estiver pronto, comecem a escrever. Não se preocupe com a letra, com os erros de português, depois você corrige, passa a limpo. Se não conseguir aqui, faz em casa. Eu achei isso o máximo. Nunca conseguia fazer uma redação direito. Era um título no quadro e uma corrida contra o relógio para entregar a tarefa antes de o sinal tocar. Ali mesmo no chão, comecei a escrever, quase com a mesma volúpia que estou escrevendo agora. Eu descrevi uma mulher, sofrida. Uma nordestina, bóia-fria. Não me lembro qual foi a minha nota, para mim foi dez.

No final do ano, novamente um impasse. A escola onde seu estava estudando, era a mesma onde funcionava o curso do CEFAM. Algumas amigas estavam fazendo o curso e diziam que era maravilhoso. Mas, como fazer? Preciso de um lugar para morar. Novamente aquele friozinho no estômago. Decidi. Fiz inscrição para o processo seletivo: prova escrita, redação, entrevista. Passei. Pedi demissão. Uma amiga, a Iolanda, conseguiu um lugarzinho para eu morar. Um quartinho na casa de um tio dela.

Começou o ano de letivo. Logo de cara tudo muito diferente. Semana do Bicho, Gincana. E os professores novos, diferentes, outras ideias. Helena, de História (muiiiiiiiiiiito exigente, o terror para muitos); Marilena, Português, doce, meiga, convencia qualquer um a se encantar por Literatura; Otávio, de Filosofia e História da Educação (político, marxista, engajado); Robson, de Português também (alto, bonitão, capoeirista e muiiiiiito exigente – tirar um B de redação com ele era o máximo); Marcinha, de Inglês (um amor de pessoa – hoje é minha colega de trabalho); Sávio, de Matemática (nos ensinou a ensinar matemática); outra de Português, a Eliana Maciel, (aquela das aulas de redação, dispensa mais comentários. Hoje é supervisora de ensino, escritora e blogueira http://elianapmaciel.blogspot.com/. E nossos caminhos continuam prazerosamente se cruzando); e tantos outros mestres...Alane, Adilson, Luís Fernando, Maria Lúcia, Mileide, Maria Aparecida, Vitor, Laura. Desculpem-me se esqueci de alguém.

Sim, o CEFAM foi um divisor de águas. Tantas leituras: Guimarães, Garcia Marques, Veríssimo, Pessoa, Drummond, Chauí, Rubem Alves, Marx. Tantas atividades: debate, painel integrado, peça de teatro infantil apresentado para as crianças das escolas municipais, livro de poemas, trabalho voluntário reforço/alfabetização, feira de ciência e cultura. Aprendi muito. Aprendi que o mundo é muito, muito maior ainda. Que as verdades são relativas. Que tudo é possível. Que há amizades que ficam para sempre. Que as diferenças são virtudes e não defeitos. Que trabalho em equipe é difícil, mas é essencial. Que professores deixam marcas para sempre, para o bem ou para o mal.



[1] CEFAM - Os Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério foram criados pelo Decreto Governamental nº 28.089 de 13 de Janeiro de 1988, no âmbito da Rede Estadual de Ensino. Com o objetivo de “recuperar a especificidade dos cursos de formação para o magistério e colaborar para suprir as deficiências do atendimento às séries iniciais da escolaridade na rede estadual de ensino; oportunizar aos alunos, trabalhadores e demais concluintes do 1º grau da rede pública um curso de formação de professores de boa qualidade, em período integral; oferecer programas de aperfeiçoamento aos docentes que atuam, na rede pública estadual, de pré-escola à 4ª série do 1º grau e nos cursos de 2º grau com Habilitação Específica de Magistério; coordenar a nível regional estudos e ações sobre a habilitação do magistério e atender a política de ação e diretrizes da Secretaria da Educação".

sábado, 18 de dezembro de 2010

Desapego

Com a proximidade do final de ano nossas energias se voltam para o exercício de fechamento de ciclo, de renovação. Tempo de pensar no exercício do desapego que deveria nos acompanhar em todos os dias do ano. É o que Antonio Gil Neto nesta belíssima reflexão que compartilho aqui com vocês.

Pelo exercício do desapego
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De cara, confesso que já fui bem mais vaidoso, egoísta, algo assim. Mais apegado às coisas. Às minhas coisas, de humanos mortais. Mas ainda fico longe de ser um desapegado. Urge fazer este exercício.

Lembro-me precisamente quando esta ideia se instalou. Minha irmã, como quem varre todas as letras da alma, comentava sobre o destino das coisas que guardo, amo e coleciono. E que enchem armários e estantes. O que será de nossas roupas, livros e demais objetos quando a gente já não pertencer a este mundinho de deuses?

Nem tenho a desculpa de ter filhos para quem deixar os meus ricos pertences. Cá entre nós, tenho observado que até em famílias prósperas e bem educadas, nem sempre bens queridos, deixados por avós e pais a filhos herdeiros sobrevivem. Muitas vezes acabam virando nada. Ou lixo.

Tudo muda e se recicla. Podemos até filosofar um pouco sobre o Tempo.Mas é preciso?

Talvez acreditemos que a medida do que nos faz feliz e a dos bens materiais que temos seja a mesma. Usufruir a prosperidade, conforto e beleza é direito do ser. É um jeito de estarmos em sintonia com a abundância cósmica. Mas, não vamos confundir com posse.

Fico pensando como seria ficar sem tantos livros, cds, perfumes, utensílios de vidro e louça, especiarias, quadros, coisas assim. Minha casa está abarrotada deles. Sempre tiro um ligeiro tempinho para lidar com eles. Como um jeito de instigar momentos prazerosos. Você deve ter também uma listinha de bens guardados carinhosos, não tem?

Tenho uma amiga que é apaixonada por sapatos. Pelo simples prazer de tê-los. Completamente à disposição de um desejo inatingível. Ela tem uma sapatoteca. Pode? Compra e tira fotos deles e deixa estampado fora da caixa para saber qual deles é na hora de escolher.

Outro dia li um texto de Fernando Pessoa no qual ele fala sobre o desapego. Ele fala de deixar ir embora. Soltar. Desprender. Encerrar ciclos.Penso eu que já vivemos bem sem alguma de nossas posses atuais. Disso ou daquilo. Portanto, nada é insubstituível. Mas, viver sem alguns materiais dos quais ficamos deliciosamente prisioneiros, ainda é difícil para mim.

Tenho amigos que são exemplos concretos na arte necessária de viver o desapego cotidianamente. Um deles doou todos os seus livros a instituições. Assim ganham nova vida nas possibilidades de encontros. Cumprem a genuína função: promover múltiplas leituras, estar à mercê de leitores. Um bonito gesto mindliniano. E esse amigo não fica sem leituras, como um preso na masmorra, sem direito a nada. Sempre tem livros por perto, uma breve biblioteca disponível. Vai dando conta de ler, reler e passar adiante. Sempre que alguém o visita, ganha de saída um livro lidinho em folha. E o desapego renova a sua vida, atualiza as suas leituras, dá prazer a outras pessoas.

Outra amiga, depois de viajar o mundo, criar família, perder pessoas mais que queridas e tantas outras coisas acabou se perguntando: “do que eu preciso para bem viver?”. Ela me disse que a resposta é aparentemente difícil e, ao mesmo tempo, essencialmente fácil e prática: não precisamos de muito para viver. Diz que a perguntinha marota tem alimentado a sua existência. De apartamento grande com lareira, jardim e cobertura, mora agora num “home oficce”, bacaninha e pequenino. “O suficiente para viver”, diz com sorriso mais nos olhos verdes do que na boca. O desapego mora com ela, aconchegadamente. Tem cinco pratos, síntese dos belos aparelhos de louça que tinha. E duas mudas de cama e de banho. E diz que está apenas no começo dessa nova vida, um tanto quanto desapegada de coisas materiais. Só busca o necessário para bem viver. Cá entre nós, sei que ela faz, com amor eterno, colares. Ela tem uma coleção deles. Lindos. Pendurados e de todas as cores e formatos. Acho que disso ela não conseguirá se desapegar, se é que isso também é coisa de desapego. Penso que é um mecanismo vital para ela. Diferente de pratos, toalhas e lençóis.

Fiquei agorinha pensando naquelas pessoas que de um segundo para outro perdem tudo: filhos, casa, documentos, roupas, comidas... Acho doído demais. Mas, até onde sei, acabam se superando e, com algumas doses de solidariedade e esperança, recriam a vida num ciclo que renasce do nada e da perda total e absoluta.

Que força é essa de eternidade que guardamos em nós, mesmo sabendo que o Tempo é o nosso presente maior e o nosso limite?

Penso também que a escola é um lugar onde a gente pode exercitar alguns esboços de desapego. Ao avesso do consumismo exacerbado que impera a cada vez que olhamos para o mundo corroendo os nossos sonhos e desejos. Há atividades nas quais podemos investir no uso de materiais comuns e produções coletivas. Até que ponto o bem comum é energia vital da escola?

Outro dia, ao abastecer o carro (esse outro bem que já está virando nosso segundo corpo), deparei-me com uma estante que ocupava um lugar de destaque incomum no posto de gasolina. Estava disponível, cheia de livros ao bel-prazer dos clientes. Isso é prática de desapego, não é?

Vou parando por aqui na tentativa de iniciar meu autoconvencimento de que o desapego é necessário, pela nossa própria contingência de vida. Se tudo é transitório, o apego é o mesmo que querer segurar o vento, o ar ou a água entre os dedos. Estou tentando praticar uma dose boa de desapego. Confesso que nunca imaginei que fosse tão apegado em algumas coisas e que isso seria tão difícil.

Olho para os meus armários e acho que eles estão abarrotados demais. Tenho que mexer neles. Praticar as primeiras lições de desapego e essência. Preciso fazer isso logo, logo. Não é preciso fazer isso em épocas natalinas, quando todo mundo fala disso e depois esquece, esperando o carnaval chegar. É uma questão de renovar e abrir ciclos da vida e do bem viver.


Antonio Gil Neto

Publicado em: 15/12/2010

Disponível em: http://escrevendo.cenpec.org.br/ecf//index.php?option=com_content&task=blogsection&id=13&Itemid=70


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Da teoria à prática

Embora seja sua língua materna, o português ainda é um desafio para muitos brasileiros. Os alunos queixam-se da difícil tarefa de desvendar os mistérios da língua pátria; os professores, desanimados, dizem que os alunos não sabem escrever, não se interessam pela leitura, e passam longe do domínio das regras gramaticais. Mas, qual seria a origem desse complicado relacionamento entre os falantes e sua língua pátria? Como resolver essa questão?
A história nos mostra que tanto a língua portuguesa quanto a disciplina escolar português demoraram muito para se consolidar em nosso país. Após o descobrimento, além das línguas indígenas, três outras línguas eram faladas na colônia: o português do colonizador, a latim trazido pelos jesuítas e a língua geral – língua de base indígena muito utilizada nas trocas conversacionais.
Nesse período, o português, longe ainda de adquirir status de disciplina autônoma, era ensinado como segunda língua, para alfabetizar. Em meados do século XIII, a Reforma Pombalina torna obrigatório o uso do português no Brasil. No entanto, até os fins do século XIX a língua portuguesa ainda não era considerada como disciplina curricular. O português ainda era usado como um instrumento de alfabetização. Em 1869 a Reforma Paulino de Souza introduz o Exame de Português nos Preparatórios. Como consequência, em 1871 um decreto imperial institui a disciplina de português.
E se o português como disciplina nasce atrelado aos Exames Preparatórios , também foram estes que determinaram o que e o como o português seria ensinado, da mesma forma que ainda hoje o conteúdo trabalhado no Ensino Médio é determinado pelos vestibulares e pelo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).
Conforme dados apresentados por Razzini (2010), a composição curricular que vigorou até 1960 era a seguinte: para os anos iniciais: leitura e recitação, redação/composição, exercícios ortográficos e gramática expositiva; para os anos finais: análise literária, história da literatura (portuguesa e brasileira), redação/composição e, por vezes, gramática histórica.
No que tange a produção escrita, as contribuições de Marcuschi (2010) demonstram a adoção de um processo que ia do mais simples ao mais complexo; da imitação, da cópia de modelos considerados adequados ao texto de palavras próprias privilegiando a descrição, a narração e, só mais tarde a dissertação.
Podemos perceber aqui algumas práticas de ensino que se cristalizaram e ainda hoje estão presentes na nossa escola: como a seriação, a composição curricular voltada para a preparação para os exames vestibulares, organização das atividades das mais simples às mais complexas, o que determina, por exemplo, que os alunos só serão apresentados aos textos argumentativos na oitava série.
Mas atualmente, já não é mais assim, você deve estar dizendo. Afinal, “o caminho parece apontar não para conteúdos formais, homogêneos, unos e descontextualizados, mas para práticas plurais, culturalmente sensíveis e significativas à formação de cidadãos críticos e protagonistas no espaço social” (ROJO, 2008, apud MARCUSCHI, 2010). No entanto, como já mencionamos, apesar de todos os avanços, nossas práticas são amplamente influenciadas por crenças e valores que foram se consolidando ao longo da história da língua e da disciplina português em nosso país.
Quando o professor se queixa de que os alunos não sabem ler e escrever, não conhecem as regras gramaticais e, os alunos, por sua vez, não entendem essa língua complicada é justamente porque
Um traço equívoco da política linguística adotada no Brasil e em Portugal durante um grande lapso de tempo (de 1820 [digamos] a 1920 [digamos]) foi um ensino da língua que postulava uma modalidade única do português - com uma gramática única e uma "luta" acirrada contra as variações até de pronúncia. (HOUAISS, 1985, pp. 25-26), parece ainda estar bastante presente em nosso conjunto de crenças a respeito do que significa ensinar português. Além disso, mesmo para aqueles que estão convictos da necessidade de um ensino voltado para o desenvolvimento da competência leitora e escritora através de práticas significativas, muitas vezes falta o conhecimento de como fazer isso.
O quadro atual aponta para a necessidade urgente de transformar, de fato, a sala de aula num espaço de reflexão sobre a língua, ou seja, priorizar atividades através das quais os alunos tenham contato com diferentes gêneros textuais (literários e não-literários) e possam refletir a respeito, analisar: a) as escolhas feitas pelos autores para produzir o efeito de sentido desejado; b) aquilo que é dizível em um determinado gênero discursivo; c) o contexto de produção e recepção de cada gênero; d) as relações entre as obras literárias e o contexto em que foram produzidas, bem como o papel que a literatura pode representar na vida das pessoas.
Para que isso ocorra, acredito que antes de mais nada é necessário revermos nossos sistemas de crenças; verificar até que ponto acreditamos realmente na eficácia das novas teorias para que possamos passar do discurso à prática. É tempo de realmente aprender a fazer e aprender porque acreditamos, não porque faz parte de uma política educacional ou porque é um modismo que eu finjo seguir e depois critico nos bastidores.
Matilde Helena Espindola

REFERÊNCIAS
MARCUSCHI, Beth. Escrevendo na escola para a vida. In: E. O. RANGEL; R. H. R. ROJO
(Orgs.) Língua Portuguesa no Ensino Fundamental de 9 anos e materiais didáticos. Coleção
Explorando o Ensino. Brasília, DF: MEC/SEB, 2010, a sair.
HOUAIS,A. O português no Brasil. Rio de Janeiro: UNIDRADE, Centro de Cultura, 1985. p. 25-26.
RAZZINI, Marcia P. G. “História da Disciplina Português na Escola Secundária Brasileira”. Revista Tempos e Espaços em Educação. Universidade Federal de Sergipe, Núcleo de Pós- Graduação em Educação. v. 4, jan./jun. 2010, p. 43-58. ISSN: 1983-6597.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Quanto vale ou é por quilo?


Quanto vale ou é por quilo?, filme de Sérgio Bianchi, é uma livre adaptação do conto machadiano Pai contra mãe. Narrativa em terceira pessoa que ocorre no Rio de Janeiro, nos tempos do Império. Revela de forma provocante a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra uma mãe, lutando por duas vidas.
É um olhar para duas épocas aparentemente distintas, mas muito semelhantes na dinâmica social resultante da corrupção impune, das injustiças e diferenças sociais. E, mais do que isso, é um perturbador convite à reflexão e ao olhar crítico sobre as nossas múltiplas realidades. Vale a pena conferir.

sábado, 31 de julho de 2010

Chá de sumiço

O clima de agitação política atingira o auge. As discussões fervilhavam nas ruas, nos bairros, nas esquinas. Depois de uma longa hibernação, as pessoas voltavam a discutir, a "criticar" os problemas nacionais. Os meios de comunicação cumpriam sua nobre função; acender a discussão aqui, amenizar ali.
Mas o que realmente comoveu os expectadores atentos foi a grande passeata de jovens estudantes que parou a avenida mais movimentada do país. Aquele bando de jovens, movidos por uma "força estranha" foram às ruas para protestar contra o lodaçal que viera à tona, inundando o meio político. Ostentavam seus ideais através de faixas, gritos discursos e cores estampadas no rosto.
Os veteranos mais eufóricos não continham a emoção. Tudo o que sempre sonharam, aquele grito preso na garganta. Estava acontecendo naquele momento. A vista de todos: na TV, nas revistas, nos jornais. O "bicho-de-sete-cabeças" fora morto e a consciência ressuscitara. Estava nascendo uma juventude politizada - como nos velhos tempos - que discute os problemas, aponta soluções, muda o rumo da história.
No entanto, um estranho fenômeno acometeu esses jovens. Sim, porque, pelo que tudo indica, desapareceram do mapa. O bicho terrível está fazendo barbaridades por aí e nem sinal de protesto, de discussão, de ação consciente. Será que a febre foi tão forte alta que eliminou os iminentes cidadãos? Ou será que foram raptados por seres alienígenas? Não sei, o fato é que aqui não estão.

Matilde Espindola

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Anjo

A mãe colocou o menino mais novo no caixote de madeira, à beira do poço, enquanto o outro corria ao redor pisando as cascas secas de eucalipto; no pé de caqui, os sanhaços cantavam saboreando a doçura da fruta. Ela jogou no poço a velha lata presa a uma corda que deslizava pela carretilha, apoiou-se na borda de tijolos, o peso da barriga tirava-lhe o equilíbrio, quase oito meses, o sétimo rebento estava a caminho. Agora puxava a corda com força fazendo a lata subir dançando e derrubando a água barrenta. O poço estava quase seco, mas logo viria a chuva, ela sempre vinha.
Tirou mais algumas latas d’água do poço e lavou a roupa. O pequeno chorava, era fome e logo todos chegariam para o almoço. Pela chaminé, a fumaça anunciava que o feijão devia estar quase cozido. A mãe secou as mãos na velha blusa desbotada, pegou os meninos e entrou. As meninas, já grandinhas: sete, oito e nove anos, limpavam a casa, varrendo o chão de tijolos e tirando o pó dos velhos móveis.
A mãe, com sua habitual agilidade, preparou o almoço e botou os meninos para comer, enquanto o pai chegava carregando a enxada e um ramo de mastruz (bom pra dor nas costas - dizia). Ela olhou para o marido, o filho mais novo no colo “Esse minino num tá bem. Preciso levá pra cidade” Lavou o menino. Lavou-se também, vestiu a saia azul, a blusa estampada, chinelo nos pés e saiu para ver se arrumava carona. O pai ficou em casa com os outros meninos.
À tardinha, já quase escuro, chega a mãe com o filho no colo “O Osvardinho disse que é infecção de garganta, deu injeção e vai melhorá” Os meninos olhando para a mãe com admiração “Ela resolve tudo, não tem medo de nada” De fato sua força era impressionante: faltou comida em casa, caminhava quilômetros e pedia ajuda; se os meninos ficavam doentes, lá ia onde fosse preciso, da maneira que fosse possível; comprar roupa nova e chinelo de dedos pros meninos; levar ao posto de saúde para vacinação; e na Semana Santa ela é quem ia puxando a família para as celebrações em Aparecida, o que para ela tinha um sabor todo especial, um misto de dor e prazer das recordações da infância.
Às vezes queixava-se de algumas coisas - a vida fora dura com ela: sentia falta da mãe que mal conhecera, vivera poucas e boas com sua madrasta, arrependia-se de ter se casado aos vinte e um, “Queria ter aproveitado melhor a vida”, dizia. Mas, os seus filhos! Ah, cultivava por eles um amor tão grande que transcendia todas as misérias humanas.
Os anos passaram, já não vinham mais os filhos; parara no nono. Agora eram os netos que abençoavam seus dias com doces preocupações. E enquanto seus braços perdiam a força com que outrora puxava a lata para tirar água do poço e seus pés já não caminhavam tão ágeis naquelas estradas de pedras ladeadas de flores, sua força e sabedoria cresciam enchendo o mundo de encanto. Não era nem preciso falar, ela pressentia, adivinhava e suas breves e doces palavras tinham o mágico poder de mais uma vez ser o braço forte que freia e impulsiona, soluciona e acalenta.
E assim foi por muitos e muitos anos: os braços cada vez mais fracos, os pés cada vez mais lentos, e a voz cada vez mais suave, mas a força de sua alma e a luz que dela brotava cresciam tão rápida e intensamente que todos vinham de longe só para senti-la por um breve instante que fosse. E era tão intensa que pairava não somente sobre a pequena Vila, agora alcançava as cidades vizinhas, o Vale, o Continente, quiçá, o Planeta por completo.
Até que um dia atingiu a plenitude. E tendo cumprido a missão, o anjo voltou para o céu daquele pedacinho de chão.
Matilde Espindola